Edson Barboza deixou as luvas no octógono em 15 de agosto, no UFC 330 em Filadélfia, depois de ser parado no segundo round por Esteban Ribovics. Terminam ali dezesseis anos e 33 lutas na organização. O que ele contou depois é que é a história de verdade: quase não enxerga do olho direito, já passou por duas cirurgias, e seguiu lutando assim mesmo.
O essencial
- Edson Barboza se aposentou dentro do octógono no UFC 330, em 15 de agosto em Filadélfia, após perder por nocaute técnico no segundo round para Esteban Ribovics.
- Ele revelou perda grave de visão no olho direito, que vem desde a luta contra Lerone Murphy, e duas cirurgias nesse olho.
- Diz que havia prometido à esposa que nunca lutaria por dinheiro, e que levou anos para aceitar que a hora tinha chegado.
Como terminou a última noite de Edson Barboza
As luvas no chão, em Filadélfia
O fim veio no card principal do UFC 330, na Xfinity Mobile Arena. Esteban Ribovics o parou no segundo round, Herb Dean entrou, e Barboza não esperou a coletiva para oficializar. Tirou as luvas e deixou no octógono, o gesto mais antigo do esporte.
A parada, ao contrário do que virou hábito, foi elogiada em vez de contestada, inclusive por Demetrious Johnson. Não é pouco para um árbitro que passou meses sob críticas. Ninguém achou que faltava mais uma troca.
Dezesseis anos, trinta e três lutas
Chegou ao UFC em 2010 e nunca mais saiu. Trinta e três aparições na organização, numa carreira que o colocou diante de seis futuros campeões e desafiantes ao cinturão. Poucos da geração dele foram escalados de forma tão dura, tantas vezes, por tanto tempo.
Ele mesmo tinha avisado nos dias anteriores ao evento: aquela noite podia ser a linha de chegada. E foi.
Duas cirurgias e um olho que parou de funcionar
O que ele contou depois
No The Ariel Helwani Show, Barboza descreveu o que vinha carregando. «Eu não enxergo mais do olho direito. Não vejo nada vindo por fora», disse. Não é escuridão total, é algo mais estranho: «Não vejo tudo preto. Vejo tipo uns clarões». Tem dia melhor e dia pior. «Às vezes melhora um pouco, começo a enxergar alguma coisa. Em outros dias trava e eu não vejo nada».
Ele aponta a origem na luta contra Lerone Murphy. Vieram então duas cirurgias no olho direito. A Helwani, contou que começou a pensar em parar quando assinou a última luta; a Yahoo Sports afirma que ele fez as três últimas lutas no UFC com a visão comprometida. As versões não batem quanto ao número de lutas, e é melhor dizer isso do que arredondar.
A promessa que ele fez em casa
A decisão não foi tomada dentro da jaula. «Faz muito tempo que eu carrego essa batalha interna enorme», contou. «Machuquei o olho na luta com o Murphy, e desde então vivo com essas batalhas por dentro». A esposa o empurrava para a saída havia anos, desde a lesão que quase custou o olho.
E havia um limite que ele mesmo tinha traçado: «Prometi para a minha esposa que eu nunca lutaria por dinheiro». Nessa frase cabe a aposentadoria inteira. Um lutador que ainda seria pago, que ainda seria escalado, e que decide que a conta não fecha mais.
Eu não enxergo mais do olho direito. Não vejo nada vindo por fora.
— Edson Barboza, no The Ariel Helwani Show
O que isso diz do esporte, e o que ele deixa
A pergunta incômoda
Um profissional competiu no mais alto nível com, pelas palavras dele, um olho só funcionando, e passou todas as vezes pelos exames médicos exigidos. Nada indica que alguma regra tenha sido quebrada. É justamente isso que torna a pergunta legítima: como se detecta um déficit desses, e quem detecta, num esporte em que o dano se acumula em silêncio entre um camp e outro.
Barboza não está pedindo esse debate. Diz estar em paz e se recusa a rediscutir a carreira: «Não muda nada. Não importa o que as pessoas pensam». Mas o fato está lá.
O que ele foi, pelas contas dele
Saiu com lucidez. «O Edson Barboza não é o mesmo Edson Barboza de 20 anos atrás», disse, antes de soltar a frase que todo lutador envelhecendo pensa e poucos falam em voz alta: «Se tivessem me dado essas três últimas lutas 10 anos atrás, meu irmão, eu teria acabado com esses caras».
Perguntado sobre o melhor homem que já encarou, respondeu Khabib Nurmagomedov. Vindo de quem cruzou com seis futuros campeões, é um veredicto que pesa.
Depois das luvas
Ele sai como um dos trocadores mais espetaculares que o peso-leve já produziu, e como um aviso escrito em letra miúda no fim de uma carreira longa. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo.
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